segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A sorte e a cidade

Terraço do Novotel, na Madison Ave

Tem dias em que tudo dá errado. Será? Ou será que é só uma questão de perspectiva?


Ontem eu fui finalmente ao Whitney Museum, um dos museus que planejava visitar desde que cheguei aqui, por ser conhecido como o que abriga a maior coleçao de pinturas do Edward Hopper, meu pintor americano favorito (ao lado do Pollock). Esse museu é também um dos mais caros, e completamente fora dos meus caminhos habituais. Mas eu nao podia ir embora sem ver esses quadros, e mesmo completamente sem grana resolvi gastar meus ultimos pennys indo até lá.

Cheguei e vi logo os cartazes anunciando a bienal de arte de NY que eles estavam abrigando. Interessante - pensei - mas queria ir direto ao assunto. Fui logo perguntando pra um dos funcionarios: Cade os Hopper? e a resposta foi: só estamos com uns dois ou tres no momento. O resto está excurcionando pelo país e dando lugar a bienal. Oi??? Nao pode ser verdade - disse pra mim mesma, três quadros?! Eu vi mais que isso no Brooklyn Museum de graça (tá, eram todos paisagens, não tinha nenhum dos clássicos dele). Nao vou dizer que nao valeram a pena, mas a frustraçao foi tao grande que eu nem consegui apreciar a bienal que ocupava quatro dos cinco andares do museu. Paciencia.

Resolvi ir até um loja que descobri na 57th St. pra tentar vender minhas joias andando pela Madison (o Whitney fica na 77th St.) mas ao inves de ir logo descendo a Madison resolvi, nao sei por que, subir um quarteirão pra poder atravessar a rua. Que ideia genial! Fui brindada com nada menos do que a loja do Louboutin, maravilhosa como eu imaginava que seria, e a Carolina Herrera logo em frente. Nos vinte e tantos quarteiroes que andei nao vi nada que me deixasse tão deslumbrada como essas duas lojas, e olha que o melhor da moda está exatamente alí (tá bom vai, a loja do Valentino e a do Tom Ford também me deixaram fascinada).

Durante a caminhada eu ia admirando as vitrines como se fossem as obras de arte que não aproveitei no museu de verdade. Me lembrei da minha cena favorita de O diabo veste Prada, quando um dos personagens diz pra garota que moda é uma forma especial de arte, porque você pode usar no seu proprio corpo e sair por aí. Quando a gente vê roupas normais como a que os pobres mortais vestem fica dificil alcançar esse conceito, e tudo parece exagero de quem nao tem mais o que pensar da vida. Mas depois de ver roupas de alta costura de perto dá pra entender um pouco melhor o que isso quer dizer.

Enquanto descansava numa especie de atrio na esquina da 57th com a Lexinton quem passou foi ninguém menos do que Karl Lagerfeld, o todo-poderoso. Até esfreguei os olhos para ter certeza de que nao estava delirando, mas depois me lembrei que isso aqui é NY, essas coisas acontecem (depois de ver a Uma Turman num red carpet quando tava saindo do metro tudo fica normal, mas isso não vem ao caso)

Enfim cheguei a tal loja, mas é claro que o cara nao tava lá. O vendedor me disse: espera um pouquinho que ele ja deve estar de volta. Mas eu não poderia esperar muito, pois tinha que encontrar um amigo na 22nd em meia hora. Esperei até mais do que podia, queria muito encontrar esse cara e mostrar minhas peças. Nada.

Sai correndo pra pegar o metro, que aquela hora estava entupido de gente. O metro atrasou, nao estava fazendo paradas locais, tive que trocar de linha, enfim, me atrasei ainda mais. Quando cheguei na porta da loja onde meu amigo trabalha tudo fechado. Tanto esforço pra nada, e pior, nao sabia nem como matar o tempo até a hora de ir pro Karaoke que eu tinha pra ir lá pelas tantas ali por perto. Encontrá-lo seria estrategico, pois alem de poder me ajudar com ótemos contatos em NY eu ainda teria uma compania agradavel até a hora do karaoke. Nota atual: esse cara virou um dos meus melhores amigos, especialmente depois que eu voltei pro Brasil.

De tao cansada decidi sentar nos degraus de uma loja ao lado que também já estava fechada, e um sujeito que estava passando veio dividir comigo sua alegria por estar no NY Times graças a uma foto que alguem tirou dele 30 anos atrás e que foi parar numa galeria de arte. Enquanto ouvia a história sem muito interesse vejo passando alguém muito parecido com o meu amigo. Sem pensar muito levantei correndo e toquei no ombro dele gritando seu nome numa interrogação. Era um grupo de umas 7 pessoas andando juntas, e eu simplesmente me meti no meio delas pra abordar o cara. Por sorte era ele. Acabamos tomando um café, depois comemos um hamburguer e ainda tomamos uma taça de vinho. Cada ritual em seu devido lugar. Melhor impossível.

A noite acabou num karaoke gay em noite especial em homenagem a Madonna. Sem comentários.
Pelo menos o saldo do meu dia acabou sendo positivo. até o que deu errado acabou dando certo de outra forma. Na pior das hipoteses você pode torturar um bar inteiro cantando "like a virgin" com direito a coreografia e coro. Nao há quase nada que um classico dos anos 80 e um bom drink nao curem.

Ah, NYC...
 
Gotta eat: Hamburguer no Shake Shack - considerado por muitos o melhor hamburguer de NY é definitivamente uma instituição da cidade. Com filiais espalhadas pela cidade, o primeiro e mais tradicional de todos fica na Madison Squre Park, bem pertinho do Flat Iron Building, parada obrigatória pra qualquer turista. Faça um favor a si mesmo e coma o hamburguer acompanhado de milk shake e fritas. http://www.shakeshack.com/
 
Gotta drink: nas imediações da Madison Square há vários lugares legais pra tomar uma taça de vinho. Aproveite o fato de que é bem mais fácil encontrar locais que servem taça de vinho e não apenas garrafa inteira pra provar vinhos diferentes.
 
Gotta buy: Se você tem bala na agulha eu recomendo comprinhas na Madison Ave. Faz mal pro bolso mas faz um bem danado pro ego e pro guarda-roupa. Quem sabe com sorte dá até pra encontrar uma promoção?

Um casamento e uma despedida



Alguns gestos e situaçoes sao capazes de nos dar a dimensao do quanto podemos cativar alguém num curto espaço de tempo. Quando comentei com meu amigo Heliah que teria um casamento para ir no ultimo fim-de-semana, a primeira reaçao dele foi constatar – impressionado – que eu estou aqui ha apenas 5 meses e ja era convidada de um casamento. Eu disse pra ele entao que esse casamento era na verdade uma espécie de marco na minha estada em NY. Queria ficar para presenciar esse momento a qualquer custo.. E foi o que fiz.


Os noivos sao simplesmente duas das minhas pessoas preferidas nesse país. Interessante porque é a primeira vez que conheço um casal e posso dizer com toda sinceridade que gosto de ambos com a mesma intensidade. Para mim é como se eles fossem um. Foi assim que os conheci, foi assim que nos tornamos amigos, foi por ambos que me senti querida e – por formarem um casal realmente harmonioso – torna-se impossivel separar o Joe da Deniz no meu pensamento. Foi engraçado quando tive que escolher de que lado do local da cerimonia me sentaria, pois realmente nao havia resposta oficial para a classica pergunta: voce é amiga do noivo ou da noiva?

Mas aquele casamento significava bem mais para mim do que ver duas pessoas queridas se comprometendo uma com a outra diante de seus amigos e familia. Era também o momento em que eu finalmente começaria a me despedir daquela cidade. Pra valer. Quando o dono da boate me perguntou para quando eu queria a minha passagem de volta, a resposta que eu dei foi “depois do casamento”.

Fui até Chelsea Piers com tres meninas do Brooklyn que acabaram por se tornar minhas unicas amigas mulheres (aquelas com quem voce cai na pista). O caminho do Brooklyn até lá era todo margeando as águas do Rio Hudson. O cenario perfeito para despertar minha saudade do lugar que ainda nem deixei. Quando chegamos custei a acreditar no que estava vendo. O espaço era um dos locais mais bonitos de toda a cidade para se celebrar um casamento. Todo de vidro, cercado pelo rio como convem a um píer e com uma vista de tirar o folego. O horario escolhido era o do por-do-sol, que por causa da garoa que caira durante todo o dia nao estava tao radiante como de costume.

A decoraçao e o cerimonial estavam impecaveis, e quando a Deniz passou pelos convidados em direçao ao local da celebraçao meu coraçao veio na boca. Ela estava perfeita. Linda por dentro e por fora, num vestido que tinha um que de suavidade e romantismo, mas que era extremamente sexy e provocante, contornando seu corpo esguio e delicado. Joe e Deniz passaram toda a cerimonia de maos dadas olhando um para o outro. Sorrindo. Lindo de se ver.

Quando tive a chance de cumprimenta-los tive de me controlar para nao desabar, jamais conseguiria faze-los entender com aquele momento era importante pra mim. A Deniz me disse que eu fui a primeira pessoa que ela reconheceu quando estava andando em direçao ao Joe e a juiza de paz.

Levei minha camera polaroid para registrar o casamento de uma forma diferente. Seria meu presente para eles. Enquanto escolhia cuidadosamente de que forma usar as 10 fotos que estavam na camera fui sentindo um misto de felicidade e melancolia que tem se tornado cada vez mais comum pra mim nessas ultimas semanas. Ver aquele casal tao querido em um dia tao feliz, convidados vindos dos quatro cantos do país e até do exterior, a festa linda, a musica perfeita. Tudo me fazia pensar que eu era sortuda demais por estar ali vivendo aquele momento, mas as vezes tudo é tao intenso que a gente nao consegue aguentar. Na hora de me despedir dos noivos a Deniz quis que eu usasse a ultima foto da camera para posar com ela. Abracei-os com toda intensidade, e disse que talvez aquela fosse a ultima vez que os veria. O DJ começou a tocar Theme from New York, na classica versao do Frank Sinatra, e as luzes dos predios do outro lado do rio pareciam brilhar um pouco mais naquele momento. A ultima coisa que disse foi “I love you” e sai correndo estalando os saltos do sapato para nao perder a carona de volta. Aquele “I love you” foi pra NY, foi pro Joe e pra Deniz, foi pro Universo, por ter me trazido até ali, e até pro Frank Sinatra por providenciar a trilha perfeita pr’aquele instante .

Olhei pra cima para evitar que a lagrima que ja havia brotado corresse pela minha face estragando a maquiagem. Truque clássico de nós mulheres. No céu nao havia estrelas. Todas elas estavam nas janelas dos prédios pra ver um casamento e uma despedida. O céu era a propria cidade, que se dava de presente pra Deniz e Joe desejando que a felicidade deles fosse do tamanho dessa ilha: infinita. De um jeito que só quem conhece consegue entender.

Gotta go: Chelsea Piers fica aberto pra visitação e lá se pode praticar diversos esportes no verão, patinar no gelo no inverno e ainda ter um lindo jantar a bordo de um dos barcos que saem de lá para passeios pelo rio Hudson. Um jeito bem interessante de conhecer a cidade.