terça-feira, 24 de março de 2009

Broken Hearts on sale in NY

Pessoas de todo o mundo vem para NY pelos mais diversos motivos. para tentarem fazer dinheiro, para tentarem ficar famosas, para tentarem escapar da vida miseravel que levam em seus países, para serem o centro das atençoes...


Mas tem uma coisa que ninguém vem buscar em NY: romance, paixao, um relacionamento pra durar. Pode parecer estranho, pois esse tipo de coisa a gente nao exatamente escolhe o lugar pra acontecer, simplesmente acontece ou nao; mas nao em NY. Não que o romance não exista aqui, não é isso que estou dizendo. Mas ele nao mora aqui, está apenas de passagem. Talvez a terra da paixão seja mesmo Paris ou Veneza, mas em qualquer outro lugar o romance é bem-vindo. Não que aqui não seja, mas as pessoas têm um pouco de dificuldade em reconhecê-lo, e quando o fazem, não sabem lidar com ele. Por isso o evitam a qualquer custo.

Aqui as relações são tão objetivas quanto os negócios: as pessoas não querem se apaixonar, e não o fazem, ponto final. Se você perguntar pra alguém o porque, certamente a resposta será algo parecido com- eu tô completamente concentrado na minha carreira, relacionamentos exigem muita dedicação. Ou - eu não posso perder tempo me envolvendo com alguém, preciso cumprir as metas que eu mesma tracei e ainda tenho que fazer dinheiro suficiente para pagar o aluguel. Ou ainda: ainda não tô preparado pra me envolver seriamente com ninguém, prefiro estar numa relação onde eu possa apenas me divertir sem compromisso.

Esse pode ser o discurso oficial, mas tá na cara que a maioria das pessoas sente mesmo é medo da falta de controle que a paixão provoca. Nenhum misterio nisso, é até explicado bioquimicamente. De fato, nossas reações mudam, nossos pensamentos se perdem, nossa concentraçao diminui, nossos batimentos aceleram e a respiração fica diferente. Pode ser bem assustador, concordo. Mas não deveria ser suficiente para que seja evitado a qualquer custo.

Mas os novaiorquinos acostumaram-se a jogar um jogo de regras bem definidas. Basta ter a sorte de conhece-las para que voce nao saia decepcionado (a). As regras são até bem simples, vamos a elas:


regra numero 1: não espere nada de mim. A gente pode sair e se divertir, mas é só.
regra numero 2: não é nada pessoal, mas eu não vou te ligar no dia seguinte, nao importa o quão maravilhoso tenha sido o jantar e o papo. tô muito ocupado pra isso. semana que vem pode ser.
regra numero 3: pra que me ligar se voce pode me mandar uma mensagem de texto? mais simples, mais objetiva, e eu posso responder quando for conveniente.
regra numero 4: voce tem que entender que eu preciso de um tempo pra ficar com os meus amigos, e depois disso talvez eu esteja cansado demais pra te ver no dia seguinte.
regra numero 5: meu trabalho vem em primeiro lugar, se voce nao é capaz de entender isso, entao talvez a gente nao deva mais se ver.
regra numero 6: nada de presentinhos pra dizer que voce pensou em mim. é muito cedo pra isso.
regra numero 7: nós nunca mencionamos parar de sair com outras pessoas.
regra numero 8: quantas ligaçoes eu preciso não atender pra você entender que eu não quero continuar te vendo?
regra numero 9: nós nao somos um casal, estamos apenas saindo.
regra numero 10: o que nós dizemos - você parece uma pessoa muito interessante, além de bonita. adoraria te convidar pra sair. Eu nao gosto de joguinhos, por isso prefiro ser direto, espero que isso nao seja um problema pra você.

O que nós queremos dizer - te achei muito gostosa e queria te levar pra cama depois do segundo encontro se possível. eu prefiro que você seja inteligente o suficiente para sempre concordar com o que eu digo na frente dos meus amigos e sim, voce é apenas mais uma igual as outras, e eu vou jogar meu jogo com voce, mas não é nada pessoal.

Bem, eu sei disso porque estou sempre pesquisando pra tentar entender o comportamento das pessoas. Não vou dizer que algumas dessas coisas não aconteceram comigo, mas não todas e - graças a Deus - eu não tive a péssima ideia de me apaixonar enquanto estou aqui. Mas pra se ter uma ideia, a Time Out Magazine, uma espécie de Veja Rio + Revista do Globo melhorada trouxe na semana do Valantine's Day uma reportagem de capa sobre a dificuldade de encontrar alguém pra se relacionar em NY!!! A seção de dicas para conseguir um encontro e manter o peguete até evoluir para coisa mais séria é imperdivel! me esclareceu muito a respeito do tema.

E não pensem que isso é coisa que só os homens fazem com as mulheres. As mulheres também jogam esse jogo, até porque elas também estão aqui pra vencer profissionalmente e não tem tempo a perder com coisas de menor importância. As regras também valem para gays e lésbicas.

O fato é que quando os primeiros sintomas de envolvimento aparecem, logo uma luz vermelha se acende e é hora de partir para uma relação mais simples e despretenciosa. Nem pensar em chegar perto do perigo de gostar de alguém.

Comprei uma caixa de chocolates em forma de coração que estava a venda com 50% de desconto depois do Valantine's Day. Como isso aconteceu no caminho pra o Riverside Park, resolvi tirar uma foto do coração com uma bela paisagem no fundo. Coloquei no flickr com a seguinte legenda "broken hearts are on sale after valantine's day" por causa da situaçao e também pela ironia, claro.

Um dos meus contatos do flickr comentou a foto, dizendo que a legenda era muito triste, e eu fui na página dele para responder. Conforme fui olhando suas fotos (ele mora em New Jersey e também vive tirando fotos de NY), percebi que todo mundo aqui se sente assim, nao é exclusividade minha nem de ninguém. Todas as imagens mostravam isso, ainda que sem querer. Vai ver todo mundo é sozinho porque todo mundo tem a cidade como compania. Estamos mesmo sempre muito ocupados para perceber que às vezes só isso não basta.

Contra todas as circunstancias, ainda acredito que, se tiver que ser, vai ser pra quem for, com quem for e aonde for, mesmo que em NYC. djavan já dizia que "por ser encantado o amor revela-se, e por ser amor, invade e fim" , quem sou eu para discordar? Talvez tudo que eu precise bem agora é daquela caixa de chocolates que eu comprei. Um coraçao encalhado, vendido barato porque ninguém quis. Wrong timing.

Sorte de quem abriu e pode sentir os batimentos acelerados, o resto do mundo desaparecendo por um segundo, a falta de capacidade de se concentrar, os pensamentos vagueando...

Vai dizer que voce nao sabia que a paixao provoca os mesmos efeitos no corpo que uma porçao de chocolate?

Gotta Go
Riverside Park - O parque se estende pela Riverside Drive entre a 72nd e a 155th Sts. O melhor local para começar o passeio é na altura da 85th indo até a 95th Sts. Ao longo da West 88th St. é possível ver a típica arquitetura do Upper West Side, contruída no final do século 19. O monumento aos soldados mortos durante a Guerra Civil fica na Riverside Drive na altura da 89th St.
Gotta eat
Zabar's - Um misto de delicatessen e Café onde é possível encontrar ingredientes especiais para preparar quase qualquer prato. No Café dá pra provar os pães artesanais e demais iguarias feitas com produtos de primeira. Onde fica: Broadway com 80th St.
Gotta Drink
Calle Ocho - Uma pedida para a noite na altura da 81st St, esse Restô Latino com decoração colorida tem na culinária cubana sua maior fonte de inspiração. Por lá não faltam mojitos, caipirinhas, margueritas e ceviches pra apimentar a noite. Também não falta gente interessada em ver e ser vista, quemm sabe não é lá que você pode descolar um "date"?
Onde fica: 446 Columbus Ave. entre 81st e 82nd Sts. Metro linha B ou C estação 81st St.

terça-feira, 17 de março de 2009

Trevos, duendes e outras coisas verdes





Dia 17 de março é Saint Patrick's day, portanto um dia onde os irlandeses que moram nos EUA se reunem para celebrar sua cultura. Seria mais um dia como outro qualquer, que só teria importancia para os irlandeses, mas é bem mais do que isso.. Por alguma razao que eu desconheço completamente, todos os novaiorquinos (nao sei se acontece no resto do país) entram em contato com sua porção irlandesa nesse dia e vao para as ruas vestindo verde para acompanhar uma parada que acontece na quinta avenida desde Midtown até o Upper East Side. Com semanas de antecedencia as lojas começam a vender camisetas verdes, chapéus, trevos e toda sorte de artigos que lembrem a Irlanda. Antes de chegar o dia já dava pra sacar o nivel da coisa, pois a camiseta mais vendida era a que trazia os dizeres: "Kiss me, I'm Irish." ou "I'm not irish, but you can kiss me anyway". Os bares anunciavam suas cervejas irlandesas adquiridas especialmente para a ocasião, e todo mundo fazia planos pra se largar na terça-feira, como se por alguma forma de indulto, aquele fosse o único dia do ano em que era permitido aloprar sem limites e como se nao houvesse amanhã.

Na ância de conferir de perto esse misto de festa profana e parada militar, fiz três baldeações de metrô para chegar ao Upper East Side e conferir de perto esse evento que prometia ser a versão americana do carnaval de Salvador. Not.







O dia estava perfeito. Um sol como há tempos eu não via e conforme o metro se aproximava das ruas onde acontecia a parada mais e mais pessoas entravam nos vagões vestidas de verde. Achei que havia alguma chance de ser divertido, mas quando finalmente cheguei ao local do desfile, qual não foi a minha decepção ao ver apenas um monte de gente olhando os irlandeses de todas as idades passarem tocando suas gaitas de fole e usando kilts. Animaçao zero, música fraquíssima, gente alcoolizada andando pelas ruas numa euforia sem razão. Coisa de quem não sabe exatamente como festejar. O que salvou a tarde foram as crianças fofas vestidas de irlandeses vendendo limonada e cookies nas banquinhas, como nos desenhos do Charlie Brown.

Andei da 34th St com a 9 av até a 6th St com av. B. Passei por Chelsea, Union Square, Chinatown, até chegar ao East Village pra tomar uma cerveja irlandesa com meu amigo JC já de noite. Enquanto caminhava por todas essas vizinhanças esbarrava com mais e mais pessoas bebadas e rindo à toa, segurando suas garrafas de cerveja dentro dos saquinhos de papel. Não pude deixar de pensar como aquilo era patético. Mas ao mesmo tempo torna-se compreensível quando se tem em conta que esse é um país extremamente conservador e reprimido.

Os saquinhos de papel embrulhando as garrafas como a gente vê nos filmes tem uma razão de ser: como é proibido beber na rua, as pessoas colocam suas cervejas no saquinho para que não seja possivel ver o rótulo. Todo mundo sabe que é cerveja, inclusive a polícia, mas esta não pode fazer nada contra a pessoa carregando a cerveja se nao for possível afirmar com segurança que se trata de bebida alcoólica, caso contrário seria uma violação de direitos. Então fica tudo por isso mesmo. E viva a hipocrisia!

Encontrei o JC e tomamos cerveja irlandesa só pra marcar a data. Deu vontade de estar usando minhas botas amarelas com uma camiseta verde, só pra mostrar pra todo mundo que eu sou brasileira mermo, sem essa de irlandesa por um dia. Nessas horas até a ideia mais clichê de brasilidade cai bem, porque vem junto com um orgulho de ser de uma terra onde todo mundo nasce já sabendo festejar. Devia fazer parte do nosso currículo. Como major skill. Mas cada um usa o verde que merece né?!


Gotta go
Saint Patrick's Day - 17 de março às 11 hs
5 Avenida da altura da 44 st. até a 86 St.
Consulte informações locais para maiores detalhes

Gotta drink
Não poderia haver dia melhor para visitar o bar que é uma instituição da cidade. O McSorley's é um bar em estilo irlandês que foi inaugurado em 1854 e de lá pra cá mudou muito pouco (com dá pra conferir pelas fotos antigas que enfeitam as paredes). Ele é considerado o bar mais antigo de Nova York, e serve Draft Beer (cerveja na pressão) em dose dupla a qualquer hora. Não tente sofisticar muito na comida se bater aquela fome. O Cheeseburguer com fritas é a pedida ideal para acompanhar as cervejas (clara ou escura) bem tiradas por um dos bartenders figuras do local.

McSorley's - 7 St. número 15E. entre a 2nd e a 3rd Av. metrô 6 para Astor Pl.

domingo, 8 de março de 2009

Here comes the sun



Hoje acordei razoavelmente cedo, especialmente se considerar a hora em que fui dormir ontem. Estava perambulando pela casa tentando decidir se fazia um café ou se voltava pra cama, quando vi duas generosas nesgas de sol entrando pela janela dos fundos. Como normalmente não estou acordada nesse horário e a presença do sol também nao é uma constante durante o inverno, posso dizer que estava diante de uma cena rara.

Meu apartamento está constantemente em torno de 20 graus, de modo que a presença ou ausencia de sol não interfere em nada na temperatura interna. Mas interfere em algo que casaco nenhum pode resolver: o meu estado de espírito. A gente vai driblando o frio até com certa categoria, mas chega uma hora que parece que o corpo pede pelo amor de Deus por um pouco de sol. Está mais do que provado cientificamente que o sol afeta o humor, que ele é responsavel pela ativaçao da vitamina D no organismo, etc. Mas hoje eu literalmente senti na pele a falta que o sol faz.

Cheguei perto dessa nesga e fiquei me esgueirando para poder sentir não apenas a luminosidade, o brilho, mas também a quentura. Aquela sensação de fechar os olhos e saber aonde o sol está só pela intensidade com que os raios tocam o nosso corpo. Quem me visse certamente diria que eu estava louca. De calça e blusa arregaçadas, com a palma das mãos e os braços virados pra cima, a cabeça baixa na altura do colo (isso sentada na cadeira), buscando uma posição ideal para que uma parte considerável do meu corpo pudesse sentir aquele calor. Não preciso dizer que durou pouco. É inverno. É NY. É uma nesga de sol entrando por uma janela nos fundos.

Mas durou o suficiente. Curiosamente, resolvi tomar um mate leão (achei um supermercado brasileiro!) com o limão que eu afanara da boate ontem mesmo, e pensei comigo: cada um tem a praia que merece (ou que escolhe), e o mate pra acompanhar.

Um amigo muito querido costuma dizer que o sol não precisa de platéia pra nascer, mas hoje, mesmo que por um breve momento, eu fiz questão de aplaudir.